Minha alma, quase completamente humanitária, recebeu o choque que necessitava: algo a mais daquilo que se vê em televisão, a vida real.
Há vezes – inúmeras e incontáveis delas – em que me pego reclamando por qualquer situação inútil: não quero comer isso, a internet está lenta, não tenho um sapato super novo para usar naquela festa. Faço cara feia, de menina mal criada e ingrata, e reclamo. Hospedo-me na mais grosseira parte da minha alma: egoísmo. Sim, ninguém é perfeito, e eu provavelmente sou a criaturinha mais imperfeita que já conheci. Afogada constantemente em um erro ocasionado pelo meu mero impulso, persistente na mesma situação que já reconheci está errada.
Porém, exatamente no dia sete de março de 2011, numa segunda feira de carnaval, algo inesperado me aconteceu. Estava na casa de praia, com minha família, a maioria das pessoas lá fora e eu dentro do quarto, ouvindo música. Escutei também a zoada de algumas poucas crianças, e ao que entendi, elas catavam latinhas. Pus os fones no ouvido novamente e me desliguei da vida lá fora. Até que minha mãe foi ao quarto me chamar e pediu que eu visse o que acontecera. Cheguei e me deparei com duas crianças comendo: dois garotos, bem pequenos e magrinhos, cada um com sacos imensos cheios de latinha, como eu havia pensado.
Eles chegaram lá com fome, e minha mãe preparou um lanche para eles, já que a janta ainda não havia saído. Sentei-me na varanda, onde se encontravam eles dois e as demais pessoas da casa, e observei: bobos, inocentes, com um brilho nos olhos apesar de toda a dificuldade que passavam. Riam com um riso tão sincero e resplandecente, e gargalhavam das brincadeiras bobas que meu tio fizera com eles. Em meio ao som dos risos, minha mãe olhou-me nos olhos e disse: e eles ainda conseguem sorrir. Assim que vi aquela cena, me veio logo à vontade de escrever isso, porque eu sentia a necessidade de dizer para mais alguém aquilo que me ocorreu naquela noite: meninos cansados, com fome, em pleno carnaval, trabalhando de catadores de latinha, e ainda assim, conseguiam eles, sorrir. Para ser sincera, aquilo foi uma das coisas mais lindas que já me aconteceram.
Quem está lendo deve se perguntar: - por quê? – Vou lhe dizer agora: sempre vi a beleza nas coisas mais simples. E aquelas crianças, em situação de vida ruim, que em comparação com a minha sinto-me até uma rainha, ainda sorriam. Sorriam. Lembrei-me de forma fugaz, como se fosse um filme, de todas as vezes em que chorei e reclamei por besteira e esqueci do restante das pessoas do mundo, que estavam num estado realmente ruim. E eu, que tenho graças a Deus comida na mesa todos os dias e uma vida maravilhosa, reclamo e choro por qualquer bobagem, tolice. Enquanto eles, que não sabem nem um terço da vida boa que tenho, ainda cansados de trabalhar o dia inteiro, sorriam, conversavam, brincavam. Conseguiam ser felizes, nem que fosse por um único momento.
Eles então terminaram de se alimentar, minha mãe colocou num depósito um pouco de feijoada para eles levarem, e foram eles, embora. Ao saírem, minha mãe falou: estude, tenha uma boa profissão. Para que você nunca se encontre numa situação dessas e possa ajudar a sair de lá, quem nela estiver.
E a lição não só para um dia, mas para uma vida inteira: sorrir e dá graças. Existem pessoas em situações realmente ruins e que ainda assim conseguem sorrir, não fazem cara feia e se satisfazem com o mais simples. E nunca, jamais, em hipótese alguma, reclamar por bens materiais, por coisas que, se parar pra observar bem, são insignificantes. E aquela noite, por mais simples que pareça ter sido, mudou minha vida, para sempre.

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