sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sem o Caio




Nem que eu encontrasse as mais lindas palavras pra tentar descrevê-lo ou conseguisse fazer um texto à altura dos que ele redigia: não. Insuficiente demais pra alguém que foi rei. Há 16 anos o mundo perdeu aquele que descrevia e desvendava sentimentos como quem desata os nós mais bem dados com toda facilidade do mundo. Há 16 anos o mundo perdeu aquele que entendia como ninguém os corações apaixonados, e deixava transbordar, em palavras, os sentimentos mais bonitos e as palavras de força e fé mais luzentes.

Sou uma completa admiradora do Caio: tanto de suas obras quanto da pessoa que ele foi em vida. De como conseguia resgatar pequenos grandes valores que desapareciam em meio à tantas coisas banais, e de como abrigava uma coragem sem igual. De como era guerreiro. De como era capaz de deixar seus sentimentos mais profundos revelarem-se entre sílabas, pontos e vírgulas. Admiro a sua capacidade de sensibilizar o coração das pessoas mesmo depois de tantos anos. Ele entendia não só a si mesmo, mas de forma - direta ou não - sabia compreender, e muito bem, o que se passa no coração de quem ama.

Da dor, Caio sabia descrevê-la de um jeito que, embora fosse tão intenso como uma luz encandeando no meio da estrada escura, tornava-se menos triste. Tornava-se algo bonito, até. E mais bonito ainda era sua forma de acreditar. De encontrar alguma saída, algum meio, algum modo de seguir em frente. De continuar a vida, da maneira mais bonita que sabia. Do jeito mais gentil que conhecia. E não deixava de amar, nem de sentir, mesmo que suas feridas não estivessem completamente cicatrizadas. Também não ocultava o coração partido, mas era forte. Mostrava, e mostra, ainda, as maneiras mais formosas e lindas de se continuar vivendo.

Caio era um amor. Um oceano inteiro de sentimentalismo e emoção. Nos ensinou e continua a nos ensinar, todos os dias, seja com um texto, um conto, uma frase, ou um livro inteiro, a sermos fortes. A mostrar a face mais luminosa. A sorrir pra vida. A acreditar no amor, mesmo que este muitas vezes nos deixe marcas dolorosas, quase marcadas à ferro (escrevo aqui, algumas de suas palavras). Caio não se foi por completo. Um pouco de sua vida continua intacta, em forma de palavras doces, que seja lá onde estiverem inseridas, nos fazem sentir um momento, uma lembrança. Caio, até sem querer, acaba nos ajudando de alguma forma. Descreve o que sentimentos, o que vivemos. Nos compreende, de algum modo. Nos faz reacender os sonhos que por pouco não desfizeram-se em cinzas. Ele, através desse dom tão lindo que Deus deu, é o humano que nos impede de desistir.

Caio não soube encarar somente a vida. Mas também, a morte. Faleceu de aids, no dia 25 de fevereiro de 1996. Logo quando viu que estava doente, teve medo de que o resultado fosse positivo. E foi. Mas ele logo acostumou-se. Não reclamou a Deus porquê aquilo havia acontecido com ele. Do contrário, acreditou que não havia melhor maneira de morrer. Aquilo que ele tinha era moderníssimo, contemporâneo, assim como ele também era. E logo partiu desse mundo. O que nos deixou, emoções, sentimentos, momentos, sonhos: tudo isso bem vivo em forma de letras. Nos deixou um gostinho delicioso e diferente de enxergar a vida. Nos deixou uma parte de si intacta, e sua história, acesa. Hoje é um dia em que não me sinto tão inspirada para prestar-lhe um devido texto, uma devida homenagem, mas isto é o mínimo que posso fazer. O que eu não poderia era deixar este dia passar em branco. Para quem o ama, não existe a morte: ele continua vivinho, aqui, no nosso coração e em cada coisa redigida que aqui foi deixada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário