sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Serenata de Amor



Eu o amava. Mas nunca acreditei que ele correspondesse o meu amor. E era raro. Meu amor por ele era mais ou menos assim: como uma única folha verde que se salvara depois de uma devastação de árvores. Tão difícil de ser alcançado como esta folha que falei. Porque estava inexplicavelmente maior até do que eu mesma, difícil demais para se tocar com as mãos e observar. Foi com uma acelerada espontânea no meu coração ao vê-lo que notei de que estava amando – profunda, intensa, inexplicável, irrevogavelmente – amando. Mal podia respirar e mais parecia que eu liberava corações vermelhinhos e perfeitos para todos os lados. 

Outro dia, algo – que eu não tenho nem ideia do que fosse, podia até ser o meu cupido meio maluco que me avisou – me disse para colocar o vestido mais lindo do meu armário e me perfumar com o melhor perfume da prateleira de madeira envelhecida que havia em meu quarto. E fiz: tomei um belo banho, vesti-me com o vestido mais bonito – todo azul marinho, com algumas flores cor de rosa – olhei-me nos espelho e pensei: “que formosa”. Pus o perfume no pescoço e nos pulsos, e pra finalizar, fiz uma linda trança que caía sobre meus ombros e terminava abaixo de meus seios. Calcei também meu sapatinho de salto, era preto. Olhei-me mais uma vez no espelho, sorri pra mim mesma e fui pra janela ver a vida passar. 

 E que vida! Quando menos espero, lá vinha ele: com uma calça comprida e um sapato de cor escura – o qual nem prestei muita atenção – e uma camisa de mangas, estilo camisa de marinheiro, toda branca com golas de cor azul escura. Seus cabelos eram um pouco grandes, de cor loura e eram lisos feito seda. E seu cheiro então... Era de longe que eu conseguia sentir. Ele olhou pra mim e acenou. Feito uma boba apaixonada – que era realmente o meu estado desde que o conheci – minhas pernas começaram a tremer e minhas mãos ficaram tão soadas ao ponto de gelarem. 

Eu não sabia o que fazer. Soltei para ele um beijo meio desajeitado e sem graça, e depois disso fiquei vermelha feito um pimentão. Meus olhos brilharam de uma forma tão intensa que eu chegava a sentir. Pra meu espanto, ele atravessou do outro lado da rua para vir falar comigo. Foi amor: nossos olhos se cruzaram e por alguns segundos apenas ficamos olhando um para o outro, sem dizer nada. Ele, meio envergonhado, suspirou e perguntou como eu estava. – Bem – respondi. Sorri para ele de uma forma que eu nem queria acreditar de tão idiota que era. Gaguejando um pouco, perguntei também como ele estava. – Be.. Bem - respondeu ele, meio inconsciente ao que parecia. 

Continuamos a olhar um para o outro sem nada dizer. Depois ele olhou-me sem jeito dos pés a cabeça, e disse com voz de quem queria fugir dali e se isolar: - você está... Você está linda. – Disse-me ele com os olhos brilhando, transformando a forma de ele me olhar a mais singela de todas. Eu agradeci, com timidez e um sorriso meio tímido e meio vulgar ao mesmo tempo. Eu estava amando tudo aquilo. Mas ele teve que ir. Despedimos-nos da forma mais distante possível um do outro - eu tinha pra mim que o amor e desejo que sentíamos de estarmos juntos era forte demais para permitirmos que acontecesse de qualquer forma – e ele foi embora. 

Fiquei o observando ir, quando senti a imensa vontade de dizer o que eu sentia e desesperadamente gritei: - EU TE AMO! EU TE AMO! EU TE AMO! – ele olhou para trás, sorriu pra mim, e continuou a caminhar. Meu coração acelerava, a emoção tomava conta de mim. E eu senti raiva: aquele simples sorriso dele foi constrangedor pra todo o amor que por ele eu sentia. Quando menos percebi, uma lágrima escorreu de meus olhos, e rapidamente entrei em prantos. Saí correndo da varanda da minha casa, e entrei. 

Tranquei-me no meu quarto, me joguei na cama e agarrei meu travesseiro, que até eu dormir ficou encharcado de lágrimas. Passaram-se dias e mais dias, ele havia sumido. Todas as tardes eu ia pra janela, esperançosa, esperando ele aparecer outra vez. E caía a noite, a lua aparecia esplêndida no céu, e eu entrava triste, com biquinho de quem ama e um olhar já querendo descrer no amor. Depois de duas semanas sem vê-lo, fui fraca e desisti de esperar por ele e fiquei a tarde inteira despetalando rosas e tentando esquecê-lo por pelo menos um minuto. Mas as tentativas eram falhas. Quanto mais rosas eu despetalava, mais memórias me viam a cabeça. 

Anoiteceu. Não quis jantar. Tomei apenas um copo de café com leite, pra tentar me manter acordada e pensar um pouco se eu devia continuar amando... Ou se deveria tentar desistir. Eram dez horas da noite e todos já haviam ido dormir. Somente eu estava acordada, olhando pela pequena janela do meu quarto as estrelas no céu. Resolvi me deitar e tentar dormir, mesmo que isso demorasse muito. Até ouvir um violão tocando lá fora. Levantei-me da cama num pulo, olhei pela brecha da janela e vi: ERA ELE. 

Saí apressada para a rua e fiquei olhando ele tocar e cantar uma linda música com a cara da cidadezinha que eu morava. – “Se tu quiser, eu invento um vento pra ventar o amor... Uma chuva bem chovida pra chover pé de ‘fulô’, pra tu ficar cheirosa e vir dançar mais eu... Se tu quiser, eu invento um poema bem cheio de rima, acendo a estrela mais bonita lá de cima, faço tudo que quiser, pra tu ficar mais eu...” – na verdade, essa música já existia, mas pensei que fosse a única forma que ele encontrara de dizer que me amava. Eu sorri. E ele gritou de forma sincera e limpa: - EU TE AMO, MEU AMOR! EU TE AMO! – ele largou o violão no chão de forma tão idiota que só fez meu amor por ele aumentar. Corri para seus braços, ele me segurou de forma intensa, olhamos um nos olhos do outro e nos beijamos por um tempo longo que parecia infinito. Sim, porque quando a gente ama tudo parece, ou melhor, se torna infinito.

Perto da minha casa, havia uma pracinha bonita e romântica: Graminhas verdes, com refletores no chão que a iluminavam. Ela possuía vários banquinhos de madeira, todos feitos com graciosidade. Tinha também algumas pequenas árvores, com troncos fortes e aparentemente indestrutíveis. Os quiosques com lanches e sorvetes estavam sempre abertos até tarde. Antes dele, eu ia lá sozinha só pra comprar bobagens e me distrair. E eu sempre via casais de namorados apaixonados sentados juntos naqueles banquinhos, dividindo sorvete, sucos e outras coisas mais. Muitos deles, somente caminhando de mãos dadas, parecia que não viam a hora passar. E chegou a minha vez. Naquela noite, éramos eu e ele, caminhando juntos pela pracinha enfeitada de amor e romantismo que dava até prazer em olhar. Fizemos diferente. Eu e ele nos deitamos na grama, ficamos abraçados olhando pra lua, contando as estrelas, e descobrindo juntos uma nova forma de... Amar.

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