domingo, 3 de abril de 2011

Para cada dia, um novo eu


A falta de conciliação comigo mesma tem acabado com meu cérebro e meu coração. Já não sei mais quem eu sou. Já perdi completamente as razões que tinha há um mês e concluo: sou ainda um mistério para eu mesma e ser já me é um grande desafio. Hoje pela manhã eu era a liberdade. Ninguém mandava em mim e até o vento que me tocava a face era motivo suficiente para que eu viajasse, transportasse-me para longe daqui. Um lugar qualquer, que fosse. Poderia ser outra cidade - nem que fosse daquelas, de interior - poderia ser outro estado, outro país, quem sabe. E passava o dia sorrindo, mandando em mim mesma, ainda que não fosse esta a realidade nua e crua. A canção dos ventos e da água contribuíam para sensação tão agradável.
Mas e amanhã? Quem serei eu? Posso ser alguém, ou até mesmo ninguém. Posso ser tudo, ou nada. Posso ser dores que se transformaram em lágrimas e, de tanto tempo acumuladas, não suportaram e tiveram a necessidade desequilibrada de me fugir pelos olhos. Sim, eu não sou tão forte quanto afirmo: frágil, que nem cristal. E às vezes - ou muitas vezes - a única solução para exorbitante tristeza repentina é me desabar em lágrimas. Desfaço assim, todo o meu conceito pessoal de que sou forte e resisto a tudo. Jogo quase completamente no lixo toda a teoria que fiz e refiz sobre mim mesma, quando na maioria das vezes os pensamentos me disseram que agüentaria, e a necessidade de botar pra fora todo o sentimento melancólico que me apertava o peito provou que eu não era aquilo. Ou pelo menos, boa parte de mim não era.
Sem me esquecer que posso ser também sorrisos e gargalhadas. A felicidade: a mais autêntica de todas - aquela que você sente, mas não sabe nem sequer o motivo. A felicidade que carece de ser ostentada não só com o sorriso desenhado nos lábios, mas aquela que contagia o coração, a alma, os outros. Que se exibe até no jeito de olhar. Felicidade que realça as cores, o charme da vida, a própria vida. A felicidade que enxerga longe. De longe. Que é sentida densamente.
Mas ainda é pouco: posso ser mais. Posso ser tudo. Um tudo que sempre vai necessitar de mais alguma coisa para ser realmente tudo. Um labirinto indecifrável. Um nó em pingo d’água. Posso ser a criatura mais chata da face da terra, e sou: aquela que não se contenta com o pouco, que sempre precisa de algo mais, algo maior, algo estupidamente grande, tão grande, que seja quase impossível de se abraçar. Ao mesmo tempo posso ser a mais legal de todas: que se satisfaz com o dia, embora algo tenha atrapalhado para que ele fosse completamente perfeito. Sou desordem: desordem pessoal.
Implexa. Todo dia é um novo dia para me descobrir, e me surpreender comigo mesma. E nem a eternidade é suficiente para que eu faça e sinta tudo. Tampouco suficiente para que eu afirme com certeza quem eu sou. Sou feliz - é apenas isso que sei. Satisfeita com o meu interminável descobrimento pessoal. Um pouco de cada coisa, talvez seja isso. Isso que me mantém, muitas vezes, equilibrada: nem um passo atrás, nem um passo a frente. E toda noite, antes de dormir, a minha gratidão a Deus. Por ter tido mais um dia gracioso de vida para aprender mais, me descobrir mais, me amar mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário