quarta-feira, 13 de julho de 2011

Pertences



Havia uma multidão naquele lugar. Pessoas conversando alto, adultos passando agitados, crianças correndo, garçons transitando pra lá e pra cá naquele equilíbrio incomum com bandejas nas mãos. Pressa, dinheiro, contas sendo pagas, refeições incompletas largadas nas mesas, bebidas deixadas pela metade. Um tumulto só naquela tarde.

Porém, havia ali, distante de tudo que acontecia, vivendo como se o tempo não corresse e muito menos voasse, um casal. Parecia que eles estavam sozinhos ali, só eles, e ninguém mais. Achei bonito porque fazia muito tempo que eu não via casal tão apaixonado assim, principalmente quando a agitação explode ao redor deles.

Estavam com roupas simples. Como quem não faz questão de chamar a atenção como o casal bem mais vestido daquele lugar.
Seguravam as mãos. Brincavam com elas. Ficavam entrelaçando os dedos de tamanhos bem diferentes um do outro. E sorriam. Dava para ver seus olhos brilharem de longe, que nem as estrelas que a gente vê no céu: distante, mas o brilho é capaz de chegar até nossos olhos.

Ele a irritava, era provável. Ela cruzava os braços e fazia beicinho - por puro charme - e ele a puxava para si. Sentados, um de frente para o outro, ele beijava suas mãos. Conversavam. Era visível o amor que tinham um pelo outro. Era como se estivesse escrito na testa de cada um: “eu amo você”. Era óbvio que estavam se apaixonando cada vez mais por um simples olhar que trocavam.

Eles realmente não viam o tempo passar. Davam beijinho, seguravam a face um do outro. Ela parecia sentir frio. Ele doou seu moletom à ela e sentou-se ao seu lado, para abraçá-la. Com os braços reprimidos, deitou-se em seu ombro. Ele mexia no cabelo dela, tanto que o soltou para acariciar melhor. Ele levantou o rosto da garota e beijou sua testa. Era notável que aquilo era um sinal de proteção.

Caio, agora, na realidade. Havia passado tempo demais observando aquele amor tão bonito. Eu precisava me apressar, já estava na hora de ir. Entrei na correria junto com a multidão inquieta, subi no metrô e resolvi continuar a história que se criava em minha mente:

“[...] Aquele casal certamente tem o melhor presente do mundo: um ao outro. Eles se amam, de fato. Se querem, se desejam, se precisam, se cuidam, se apaixonam um pelo outro a cada segundo mais. Ele a protege como um Anjo. E ela se sente protegida como alguém que necessita de seus cuidados. Lindos, apaixonantes, hipnotizantes. Passaria ainda mais tempo só para esperar um beijo de verdade daqueles dois. Deve durar uma eternidade, acredito.
Já devem ter planos pro futuro. Noivar, casar, terem filhos. Meio distante, mas já devem ter planejado isso, eu sei. Ou será possível que amor de tal imensidão não faria questão de ousar da certeza de que terão para sempre um ao outro? Serão felizes. Deus quer. Isso vai acontecer. Eles se amam demais para se deixarem ir. Aquele simples toque de mãos deixava óbvio que havia entre eles um verdadeiro campo magnético inabalável, onde nenhum seria capaz de se chocar com o que viesse de fora.
Olho agora pela janela e observo a rua já meio escura, com poucas luzes, pessoas que já devem estar quase adormecidas e lembro: que sortudos! Eles têm um ao outro para prestar aquele abraço de que tanto a gente necessita.
Devem, depois, irem pra casa. Juntos, de mãos dadas. Abraçados no frio da noite que já começara a cair.
Aqueles não sentem falta do amor que os apressados sentem. Digo isso porque viviam como se nada ali importasse, a não ser o que sentiam. Sei também que mesmo longe, o coração dela está no dele, e vice-versa. Eles já são para sempre. [...]”


(Pessoas que se amam pensam antes de qualquer coisa no amor que sentem entre si. Se apaixonam a cada olhar, beijo, abraço, toque de mão, encoste dos dedos. Enquanto o mundo vive e corre lá fora, a pressa tira a paciência das pessoas, os afazeres, as tarefas, causam insônia, a juventude se preocupa nos porres que tomarão naquela sexta-feira e as crianças esperam inocentemente o tempo de “pessoas crescidas” chegar; eles se amam a cada vez mais e deixam que seus corações pertençam um ao outro. E cuidam disso. Zelam por isso. Não deixam que acabe e vivem na calmaria do tempo que aprenderam, juntos, a eternizar.)

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