domingo, 13 de janeiro de 2013

Saudações aos que (ainda) são humanos



 Esqueçam que o cometa Halley nos mataria devido ao cianogênio quando passasse pela Terra. Também abominem a ideia de que o cometa Hale-Bopp viria seguido de uma nave alienígena, em 1997. De todas as afirmativas, a única quase tolerável é a virada do milênio: dizia que, no ano 2000, inúmeras catástrofes findariam o nosso habitat natural. Errado dizer que acabou. Certo falar das catástrofes que, embora não tenham destruído tudo de uma vez, como a bomba atômica destroçou Hiroshima e Nagasaki, têm matado lentamente os nossos semelhantes (e todo o lugar em que vivemos).
                
Os tempos passaram e os dias praticamente escorrem pelas mãos. Teorias diversas são lembradas, seja em internet, jornais impressos ou televisão. E basta que surja uma nova para roubar a atenção dos alienados que mudam até mesmo suas rotinas para focarem em desastres inventados e fazê-los criarem refúgios de como sobreviver. Desnecessário. Abominável, até. Bom mesmo seria saber o que acontece na mente de uns e outros e entender (ou ao menos compreender) o que os ocupam e os fazem dedicar suas vidas em função de seus fins, enquanto tantos precisam apenas de um recomeço.
                
Dor mesmo é sentir a ingratidão de tantos para com suas vidas. É ver o mundo inteiro se voltar a assuntos sem nexo e intoleráveis na mente de quem pensa grande. Por isso, lhes digo: não aspirem à próxima data e hora inventada. O mundo se acaba todos os dias, mas quase ninguém vê. Ao invés de gastar seu tempo imaginando inúmeras possibilidades de finalizações e fatalidades, pense. Há por aí tantos que carecem socorro. Casas que descem morro à baixo devido à chuva. Famílias que tudo o que tem é um pedacinho de chão debaixo da ponte pra chamar de moradia. Mesas que se fartam no máximo de esmolas dadas, por vezes, com má vontade – e isso se conseguir algum pedaço de pão. Existem tantos que rogam pelo reconhecimento alheio de que ainda são pessoas e querem viver. Que o endereço residencial é a própria rua e o lugar de dormir, o próprio nada.
               
  São por estas e outras razões que não nego o quão plausível é encontrar almas bondosas nesse mundo que é morto bruscamente todos os dias. Almas estas que aprenderam uma importantíssima lição: o futuro é agora. E não esperam semana que vem para resgatar vidas que passam despercebidas por inúmeros seres que se dizem humanos, mas não tentam amenizar a dor da própria espécie. Tiro o chapéu para aqueles que agem, sim, como um cometa no universo particular de muitos: revolucionam e tiram do fundo do poço aqueles que já não alcançavam mais o céu e haviam perdido a esperança em si mesmo.
                
E o bonito da vida é isso: entender que o mundo não é ele por si só. Que não se limita a destroçar-se por uma razão ou outra. Mas que é basicamente feito de inúmeras vidas, e estas sim constituem o verdadeiro lugar em que vivemos. E que seu fim é as vidas que se findam. Por falta de uma razão ou outra. Felizmente, ainda existem cientistas da vida, diplomatas de coração e veteranos por experiência que atentam ao que está ao nosso redor mas é desprezado até mesmo pelos nossos próprios governantes, e que funcionam melhor que qualquer máquina movida à energia elétrica buscando descobrir o próximo desastre explosivo: já reconheceram que os problemas são maiores que qualquer meteoro mas que eles são ainda maiores que isso. E podem mudar histórias. Salvar vidas. Resgatar a fé de que as coisas podem ser melhores. Aí sim. Heróis. (Que merecem mais reconhecimento que qualquer personagem de história em quadrinhos e qualquer um metido a profeta, que quer saber do futuro mas não enxerga o presente debaixo do próprio nariz).

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