Esqueçam
que o cometa Halley nos mataria devido ao cianogênio quando passasse pela
Terra. Também abominem a ideia de que o cometa Hale-Bopp viria seguido de uma
nave alienígena, em 1997. De todas as afirmativas, a única quase tolerável é a
virada do milênio: dizia que, no ano 2000, inúmeras catástrofes findariam o
nosso habitat natural. Errado dizer que acabou. Certo falar das catástrofes
que, embora não tenham destruído tudo de uma vez, como a bomba atômica destroçou
Hiroshima e Nagasaki, têm matado lentamente os nossos semelhantes (e todo o
lugar em que vivemos).
Os
tempos passaram e os dias praticamente escorrem pelas mãos. Teorias diversas
são lembradas, seja em internet, jornais impressos ou televisão. E basta que
surja uma nova para roubar a atenção dos alienados que mudam até mesmo suas
rotinas para focarem em desastres inventados e fazê-los criarem refúgios de como
sobreviver. Desnecessário. Abominável, até. Bom mesmo seria saber o que
acontece na mente de uns e outros e entender (ou ao menos compreender) o que os
ocupam e os fazem dedicar suas vidas em função de seus fins, enquanto tantos
precisam apenas de um recomeço.
Dor
mesmo é sentir a ingratidão de tantos para com suas vidas. É ver o mundo inteiro
se voltar a assuntos sem nexo e intoleráveis na mente de quem pensa grande. Por
isso, lhes digo: não aspirem à próxima data e hora inventada. O mundo se acaba
todos os dias, mas quase ninguém vê. Ao invés de gastar seu tempo imaginando
inúmeras possibilidades de finalizações e fatalidades, pense. Há por aí tantos
que carecem socorro. Casas que descem morro à baixo devido à chuva. Famílias
que tudo o que tem é um pedacinho de chão debaixo da ponte pra chamar de
moradia. Mesas que se fartam no máximo de esmolas dadas, por vezes, com má
vontade – e isso se conseguir algum pedaço de pão. Existem tantos que rogam
pelo reconhecimento alheio de que ainda são pessoas e querem viver. Que o endereço residencial é a
própria rua e o lugar de dormir, o próprio nada.
São
por estas e outras razões que não nego o quão plausível é encontrar almas
bondosas nesse mundo que é morto bruscamente todos os dias. Almas estas que
aprenderam uma importantíssima lição: o futuro é agora. E não esperam semana
que vem para resgatar vidas que passam despercebidas por inúmeros seres que se
dizem humanos, mas não tentam amenizar a dor da própria espécie. Tiro o chapéu
para aqueles que agem, sim, como um cometa no universo particular de muitos:
revolucionam e tiram do fundo do poço aqueles que já não alcançavam mais o céu
e haviam perdido a esperança em si mesmo.
E
o bonito da vida é isso: entender que o mundo não é ele por si só. Que não se
limita a destroçar-se por uma razão ou outra. Mas que é basicamente feito de
inúmeras vidas, e estas sim constituem o verdadeiro lugar em que vivemos. E que
seu fim é as vidas que se findam. Por falta de uma razão ou outra. Felizmente,
ainda existem cientistas da vida, diplomatas de coração e veteranos por
experiência que atentam ao que está ao nosso redor mas é desprezado até mesmo
pelos nossos próprios governantes, e que funcionam melhor que qualquer máquina
movida à energia elétrica buscando descobrir o próximo desastre explosivo: já
reconheceram que os problemas são maiores que qualquer meteoro mas que eles são
ainda maiores que isso. E podem mudar histórias. Salvar vidas. Resgatar a fé de
que as coisas podem ser melhores. Aí sim. Heróis. (Que merecem mais reconhecimento
que qualquer personagem de história em quadrinhos e qualquer um metido a
profeta, que quer saber do futuro mas não enxerga o presente debaixo do próprio nariz).

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