domingo, 14 de abril de 2013

S(em) público





Não é mais na naturalidade de um desses encontros do destino, nem do que flui depois de conversar a tarde toda num ambiente tranquilo que cheira poesia. Não é o que acontece depois do íntimo de uma amizade, tampouco das conversas jogadas no intervalo do colégio ou na saída do trabalho: mas tem sido buscado (tudo, menos encontrado) nos lugares mais banais e transparecido um nível de estupidez altíssimo. Era uma vez - e infelizmente isso não é conto de fadas - que o amor dobrava e desdobrava o coração.

Há algo que tem se tornado cada vez mais comum e que, quanto mais comum, mais tem me incomodado: essa procura pelo par amoroso nos meios menos prováveis de despertar qualquer tipo de sentimento. Atração forçada. Submissão à uma seleção de quem será escolhida para cumprir o cargo da namorada que foi escolhida não pelo que despertou na alma, nem mesmo porquê o olhar do outro simplesmente vidrou-se naquela que, sem dúvidas, mudaria sua vida, mas porquê disputou, como num desfile, com outras garotas que, sim, rebaixam-se ao teste de mais bonita, mais simpática, mais atraente, mais interativa, "melhorzinha".

E aí, adeus: o jantar romântico que rende conversas construtivas e faz o casal sentir-se à vontade para sentir um ao outro no olhar, no falar, e no agir, substituído por uma mesa rodeada de câmeras e frases ensaiadas para não fazer feio na televisão. A troca de olhares que mais parecem encontro de rio e mar, trocadas pela casualidade de uma face à face fria e sem expressão. O riso espontâneo em meio à conversa mais sem graça que surge simplesmente porque ali existe sentimento, aparece estampado em rostos que, em público, precisam apenas mostrar os dentes para exibir em rede nacional uma suposta felicidade à dois. As mãos que  se tocam lentamente até que se encaixem, trocadas pelas mãos que se cruzam apenas por estarem ali numa suposta condição de casal.

Uma, duas, três, quatro. Assim por diante. Um dia com uma. Um dia com outra. As conversas são clichês, a intimidade que se ganha ao longo do tempo reduzida para semanas, porque o programa tem pressa de juntar as criaturas. Elas sabem que não são únicas. Ele diz querer uma companheira. No fim, todos à procura do que querem no lugar onde não se encontra. Digo sem medo que dali não sai um casal, mas uma dupla. Seja lá do que for. Sei que, o que deveria ter, não tem: porque o amor não brota em meio à rede de televisão, rodeado por câmeras e sendo testado pessoa por pessoa. Não floresce de um beijo sem emoção na frente de qualquer um, nem na fila das próximas à experimentar.

Nunca foi e jamais há de ser assim. Porque amar não é em público. Amar não é na correria. Não é em teste.  Amor mesmo a gente não procura na pessoa mais bonitinha com o emprego mais parecido com o seu. Não é no bolso mais cheio, nem no nível social mais elevado. Não é contando aos telespectadores o que achou de uma e da outra. Muito menos da finalista: porque o amor não é programa, não é reality show. Porque o amor não precisa da opinião do público e menos ainda de filmagens. E quem busca por esse caminho encontrar a sua metade, busca errado. Onde não existe sequer uma vírgula do que deveria ser uma grande história.

Ele, que tanto pode mudar a vida de alguém, jaz na quietude do universo. Nos lugares esquecidos por uma humanidade tão desumana. Na primavera que, em sua beleza, deveria ser apreciada pelos olhos de dois que se amam. No silêncio da biblioteca que recita poesias e traduz o que tantos corações não conseguem dizer. O que tantas câmeras não conseguem entender. Está na noite de céu limpo e luzente, de lua cheia, à espera da companhia de um casal para assistir esse espetáculo que vale muito mais do que seu próprio rosto televisionado. Que prefere ser visto por lentes humanas. Está naquela pessoa que te ama tanto, que não precisa testar outras para ter certeza de que é e vai continuar sendo você.

E, se pra você, encontrar o amor no afeto que outro lhe transmite, no olhar que aconchega a alma, no abraço que dissolve o desespero, na conversa que ameniza a correria, no tempo certo pra que se chegue ao mais íntimo do coração é clichê, garanto que também acho. E acho lindo. E certo. Porque nutro a ideia de que existem coisas que devem se manter nesse tradicionalismo tão gentil, doce e sincero. O mundo tem se desenvolvido rápido demais e a tecnologia tem ocupado o lugar de muita coisa, inclusive a televisão, que ao invés de fornecer conteúdo, tenta dar uma de cupido. Se é assim, prefiro que o amor - com toda a essência da palavra - continue sendo assim, tão "atrasado".

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