Nervosa de nascença e sentimental
até se deixar transbordar, descobri – em meio aos grandes contrapontos da vida
– que desespero mesmo é a gente perder de vista a si mesma. Em últimos tempos,
com a rotina que devora e inquietação que desalenta, me espacei de muitíssimas
coisas que me são fonte de felicidade e mesmo até – ainda um pouco
surpreendente — de minhas boas companheiras: as intermináveis palavras.
Na
ferrugem que logo se manifesta ao ver que algo está em abandono, fui por ela
consumida, há pouco, por puro descuido com detalhes meticulosos que são
alicerces de meu edifício inteiro. De cabeça, apesar de tudo, erguida, eis aqui
minha afirmação de que cheguei à alguma espécie do fundo do poço. Não: não fiz
barbáries, dessas assombrosas que muitos resolvem cometer por loucura ou
desesperança. Fiquei, contudo, e sem compreender os motivos, numa tristeza
aguda e fininha, que vinha me visitar todas as noites, na busca de me fazer
derramar lágrimas que, bastante, me pesaram. Como se o coração estivesse vazio e a
vida – que sempre fiz questão de colorir – tivesse perdido o brilho e a cor.
Daquelas raríssimas coisas que a gente não imagina para si, cheguei a ver meus caminhos num
blecaute terrível. Luz apagada. Os mais bonitos sonhos desordenados:
absolutamente fora de qualquer lugar sensato. Só Deus sabia o que me pulsava no
corpo e – sobretudo – na alma nessas semanas angustiosas e consternadas.
Embora desencaminhada dentro do meu próprio universo, não deixei de crer nas incessíveis formas de ver o lado bom de tudo e como, desde sempre, finquei em mim a certeza de que sempre é possível colher
alguma flor - mesmo em meio ao lamaçal - busquei resgatar em mim as essências
que fazem com que eu seja ininterruptamente: quem sou. Abri o coração e pedi a
Deus – com um dos clamores mais fervorosos de meus quase 17 anos – que me
permitisse enxergar o que havia de errado. Como Bom Pastor que Ele sempre foi, ouviu as preces feitas diante daquela pequena, mas tão serena, velinha que
resolvi acender em meu quarto e me permiti sentir o que me havia de ser dito.
Depois
dessa que, com minhas mais sinceras palavras, eu não esperava, descobri que o
fundo do poço pode ser recinto para uma grande descoberta: de que ali não é o
lugar da gente. Pelo menos, não o meu. Vi que nos desencontros internos, a gente acaba por se encontrar, de verdade. E que é sempre possível deixar que as luzes
reacendam, vai ver, com brilho ainda mais forte. Que a vida pode estar difícil como for: dá sempre para tirar
um sorriso do meio daquele cansaço e um abraço que sossegue a alma. Ainda que
ríspidos, todos os dias têm um quê de magia: a gente só precisa aprender a prestar atenção no que se passa invisível aos olhos de tantos que, na dureza de seus sentimentos, preferiram desperceber o mundo. Nós somos, meu caro, acima de
tudo, humanos, e não devemos nos levar pela maré: se há espaço para o desespero, há também para transformar toda
a loucura em cura, no desembocar de palavras que ficaram presas e gestos que revelam a candura que, no fundo, sempre esteve viva dentro de cada um de nós. Fundamental, permitir que as raízes não se desfaçam e continuem a sustentar o que sou - o que somos, porque é muito importante que ninguém se perca. E consentir que o coração volte a bombear mais que
sangue. Amor. No corpo – e na alma inteira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário